06/03/2016

You and me could write a bad romance

A puberdade, né. Você sai dela, mas ela não sai de você.

Estava no auge dos meus 14 anos. Estudava numa escola ruim de bairro, mas era perto da minha casa. Eu e minha amiga, que morava no mesmo prédio, íamos juntas pra escola conversando sobre aleatoriedades e coisas insignificantes, mas que para a época eram bem importantes.

- A Capricho desse mês falou de um livro que parece interessante, você viu? - perguntou Bianca.
- Vi, um tal de Crepúsculo, né? Espero que seja bom. Gosto de vampiros, o último que li sobre o tema foi Entrevista com o Vampiro, você já leu?
- Não, mas eu vi o filme com Brad Pitt. Ele não é o homem mais lindo do mundo? - disse com brilho nos olhos.
- Bom... Ele parece bem arrumado. - dei de ombros. Pra mim, os homens não tinham graça nenhuma. 

A vida era fácil. Ainda dava pra esperar um livro que estivesse no nível de Entrevista com o Vampiro.

Foi então que eu comecei a gostar dela
Não da minha amiga do prédio, cruzes, ela é quase minha irmã. 
Seu nome era Yara. Era uma garota de outra turma, que gostava de Evanescence e Green Day, e eu a achava perfeita (eu tinha 14 anos, minha noção de perfeição era questionável). Crepúsculo e Brad Pitt deixaram de importar. Convivi com a dor de vê-la todo santo dia na cantina, no pátio, na quadra e no corredor. Linda. Puta merda, como era linda. Por muitas noites, deitei em minha cama e chorei até dormir. Ou então imaginei Yara e seus cabelos negros vindo em minha direção para me beijar com seus lábios doces. Nos meus sonhos, conversávamos sobre música, filosofia, e a vida cotidiana - ela era tão inteligente. A vida virou um martírio, e nem as músicas do Evanescence conseguiam expressar a dor que eu sentia. Ela era impossível e inacessível, tal como todas as mulheres que eu já amei nessa vida. Meu sobrenome é Papel de Trouxa.

Então um dia cheguei na escola e lá estava ela no portão. Com um cara com os braços em volta dela. Um. Maldito. Cara. Era mais velho, do último ano do ensino médio. O que eu, com 14 anos, podia contra ele? E eles se beijaram. De língua! Decidi que isso não ia ficar assim, eu ia me vingar! Como pode a mulher da minha vida aparecer com um cara assim e acabar com toda história bonita que a gente construiu só na minha mente???


Decidi que era a hora de jogar sujo e fazer coisas insanas.
Dei em cima de um cara da escola que era amigo dela, e a gente ficou. Algumas vezes. Não aguentava encostar minha boca na dele por mais de três segundos, mas pareceu uma boa ideia para me livrar do fardo de gostar da Yara. Dei uma chance pra ele. Era baterista, tinha uns piercings bem loucos e gostava de Dimmu Borgir. Pra coisa ficar menos feia, eu fechava os olhos e imaginava estar beijando Yara. Mas sentia o cheiro de Paulo, o baterista, e dava ruim.
Bom... Isso foi no começo.
Depois eu realmente comecei a gostar dele, mas de uma forma muito estranha. Não era como gostar da Yara. Era algo mais próximo do animalesco. A gente se beijava desesperadamente na escada de emergência do meu prédio, como se quiséssemos provar algo a alguém. Dava até pra sentir o gosto metálico que vinha dos piercings que ele tinha na boca.

Contei pra minha mãe que estava apaixonada por Paulo, que ele era muito legal. E minha mãe, cética, perguntou:
- Ele não é velho demais pra você?
- Um pouco, mas a gente gosta das mesmas coisas.

Mas Paulo virou um vacilão. Ele queria transar comigo. Insistia e dizia que era importante para nós dois. Falei que não, então paramos de ficar. Fiquei triste, porque lembrava dos beijos na escada, e dos barulhos que o elevador fazia subindo e descendo atrás de nós. Era fácil beijar Paulo, porque dava pra esquecer de mim mesma, e da dor que era ver Yara e seu namorado do ensino médio todos os dias.
Ele jogou muito sujo depois que rompemos, esse otário. Resolveu espalhar para toda a escola que eu era uma vadia suja que deu pra ele na primeira semana. A virgindade tinha um valor muito importante pra mim naquela época, pois significava pureza e caráter inócuos. Não admiti ser associada a algo tão horrendo quanto transar com Paulo, até porque ele parecia não gostar muito de banho! Fiquei triste, defendi minha honra, mas de nada adiantou. Definitivamente, eu não era mais virgem, e outras meninas vinham me perguntar como era a experiência de transar, incluindo Yara, o amor da minha vida de 14 anos. Só Bianca acreditou em mim.

- Quem diria, hein? Deu de ombros pro Brad Pitt mas ficou esse maior tempão com o Paulo, aquele cara totalmente esquisito. - disse ela em ar de risos, enquanto subíamos a rua de volta pra casa.
Respirei fundo, pois já estava chateada o suficiente com a história toda, e respondi:
- Em minha defesa, só o que tenho a dizer é: pelo menos ele beijava bem. Já o Brad Pitt nunca saberemos.

Conversei com Paulo pelo Facebook outro dia. Atualmente ele tem um namorado chamado Marcos. Ele pediu desculpas por ter me usado para provar sua masculinidade, e por ter falado coisas horríveis sobre mim. Disse que, na verdade, sempre gostou de homens.
- Achei que se eu transasse com você, que sempre foi muito linda, talvez eu conseguisse gostar de mulher.

COMO ASSIM VOCÊ ME USOU, PAULO?
Homem só decepciona, puta merda.
Só eu poderia ter feito isso!!!!

Os temas do Casos de Família são, como sempre, bem atuais.

Demorei a postar simplesmente porque esqueci que tinha blog?????????? Só eu mesma, sinceramente...

31/01/2016

Não existem ateias quando a menstruação desce

A forma como eu tenho questionado minha não-crença tem se tornado bastante curiosa nos últimos tempos.
Desde os 12/13 anos, me declaro como ateia. E é óbvio que num país majoritariamente religioso, isso gerava muitos problemas práticos tais como discussões em família na hora do almoço, horas de tentativa de doutrinação parental etc. No começo, tinha a ver com rebeldia, raiva da igreja católica, raiva de Deus, raiva das pessoas que usam religião como pressuposto fático pra serem ignorantes com os outros. Vivi um momento confuso na pré-adolescência, por não saber que bissexualidade existia, então eu achava que estava com alguma espécie de doença sem cura. Mesmo assim, frequentava a missa e, segundo o padre, um dos males da sociedade era a homossexualidade. Resolvi mandar o padre tomar no cu internamente. Parei de ir à missa com meus pais, e à princípio eu tinha dores de cabeça, estava gripada, tinha dever de casa pra fazer. E depois de um tempo eles também pararam de ir à missa ou de perguntar por que eu não ia.
Hoje, entre meus 20 e 30 anos, cansada de discussões religiosas em volta da mesa, nem um pouco preocupada se na hora do pai nosso vou estar num canto olhando as notificações do facebook, tenho pensado se um dia minha vontade de gritar que DEUS NÃO EXISTE vai acabar. Às vezes acho que ela está acabando, e que ando pelas ruas só a espera do famoso Milagre.

Eu quero acreditar. Quero muito. E já tomei medidas drásticas e nada racionais para me fazer acreditar, como dizer em voz alta: se Deus existisse, certamente ele teria inventado Quentin Tarantino. Ou seria Quentin Tarantino um deus?
Reticências.

E na última sexta-feira, estava um dia ensolarado na minha cidade. Muito ensolarado. Eu tinha acabado de assistir a uma audiência em um dos Fóruns da cidade, por causa do estágio. Estava com uma roupa social totalmente escura. De preto no sol de 40°C. Deixando os goticismos de lado e a grande burrice em escolher roupa escura pra sair de casa, sabendo que na volta eu vou pegar no mínimo uma insolação, eu estava desesperada.
Desesperada talvez não seja a palavra. Mas eu estava menstruada há alguns dias, e minha menstruação será para sempre um mistério para a humanidade em termos de fluxo sanguíneo. Às vezes tenho até que tomar remédio pra anemia, uma coisa realmente fantástica o sagrado feminino.
Eu odeio menstruar. Com todas as forças que esse maldito útero faz pra soltar essa merda vermelha que sai uma vez por mês.
Entrei no ônibus e estava em pé. A Mari Mari tinha acabado de me mandar mensagem, mas quando eu abri a bolsa pra pegar o celular e ver quem era, senti uma coisa muito estranha. Muito estranha mesmo. E eu estava desesperadamente preocupada, com vontade de chorar por todas as gerações de mulheres que menstruam e não sabem lidar com isso muito bem, assim como eu.
Tentei ficar calma, li as mensagens da minha amiga, mas no fundo pensando CARALHO, PUTA QUE PARIU!!!! ESSE SANGUE TÁ VAZANDO E TODO MUNDO VAI VER RIOS DE SANGUE DESCENDO PELA MINHA PERNA, EU PRECISO CHEGAR EM CASA LOGO. Eu sentia um líquido descendo pelas minhas pernas e não tinha coragem de olhar pra baixo e saber o que era. Mas eu estava de saia, e isso significa que todo mundo estava vendo a menstruação descendo pelas minhas pernas enquanto eu estava lá em pé.
Um senhor que estava sentado na minha frente se levantou pra descer no próximo ponto, e eu juro por DEUS que tinha muita vontade de sentar naquele maldito assento, porque eu queria sentar pra descansar as pernas do salto agulha, e mandar mensagem pra Mari e dizer: amiga, pelo amor de DEUS, tá acontecendo uma coisa horrível que acontece comigo todo mês. Mas parte de mim dizia: se você sentar, quando levantar vai ter uma poça de sangue no assento e todo mundo vai te olhar. Começou a pintar suor da minha testa, minhas axilas começaram a transpirar - Deus inventou o desodorante? - e meus pés começaram a escorregar dentro dos sapatos. Fiquei em pé. Digitei uma mensagem pra Mari, mas com um dedo só, então eu nem conseguia dizer que estava me despedindo desse mundo para sempre. Um rapaz sentou e se ofereceu pra segurar minha bolsa. Aceitei. As duas mãos suadas segurando os ferros do ônibus.
Rezei o pai nosso. Jurei que se eu saísse socialmente viva desse ônibus, ia andar de joelhos por qualquer escadaria dessas do Brasil que as pessoas usam pra subir de joelhos quando fazem promessas. Deus, por favor me ouve, eu nunca fui tão ruim assim, só estive confusa. Jesus Cristo, Santa Maria Mãe de Deus, por favor me ajudem.
Eu rezava e pensava nas imagens da Christina Aguilera, tão gente como a gente, e seu acidente com a menstruação. Que na verdade era bronzeado, mas achei que se pensasse que ela é tão humana quanto eu, iria me tranquilizar.


Estava perto de casa. Em pé. Puxei a cordinha. Desci com as pernas bambas.
Meu Deus, só mais um pouquinho e eu chego em casa, tiro essa roupa horrível e me tranco no banheiro com o desejo de só sair dele quando tiver passado pela menopausa. Abri o guarda-chuva pra fazer sombra e andei até chegar em casa.
Minha mãe perguntou:
- E aí, minha filha, como foi seu dia?
- EU TO SANGRANDO PELA VAGINA, DÁ LICENÇA POR FAVOR.
- Hm, ok. Obrigada pela informação.

Ligo a luz do banheiro. Tiro a blusa de botão, a saia lápis e o sutiã. Olho pra baixo.
Não era menstruação. Era suor.
Deus existe. Ele transformou menstruação em água.